quarta-feira, 23 de maio de 2018

EMPTY BELLY





            

                                                                        Sofia

quinta-feira, 17 de maio de 2018

ANDRÉ BAZIN










Nota: Este texto foi originalmente publicado na página da Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema.






“Qu’est-ce que le cinéma ?”


                O que é André Bazin ? Obviamente, a pergunta não visa a identidade formal do autor; sabemos, e afirmámo-lo em texto anterior desta rubrica “Textos & Imagens” dedicado ao nº 1 da revista “Cahiers du Cinéma”, que é o mais importante e influente crítico e teórico do pós-guerra. A medida dessa importância e dessa influência é sobejamente conhecida, sobretudo entre os autores da Nouvelle Vague. Sobretudo, mas não só; basta que pensemos na plêiade de autores (já não autores de cinema, mas pensadores de cinema) que, dos dois lados do Atlântico, se reclamam seus herdeiros e também seus contestários. Aliás, a contestação é uma outra forma de reconhecimento, manifestando-se muitas vezes através de uma figura a que Harold Bloom chamou “angústia da influência”  (ver “O Cânone Ocidental”).
                Assim, a pergunta inicial dirige-se a um núcleo de sentido que tem a sua origem no modo como jogou “o jogo das categorias”, entendendo-se “categorias” no sentido filosófico de conceitos e constelações de conceitos que criam zonas de discursividade progressivamente radicadas numa determinada cultura, fazendo evoluir o horizonte de inteligibilidade do(s) objecto(s) sobe os quais se debruçam. Utilizando uma expressão de Michel Foucault, a ordem do discurso de André Bazin inaugura aquilo a que mais tarde se chamaria “cinefilosofia”, ou seja de um tipo de pensamento que pesquisa a essência do cinema recorrendo à pura forma interrogativa da disciplina filosófica, a pergunta “o que é”, que remete para uma ontologia do cinema. Se dúvidas houvesse sobre a afirmação do acto fundador de uma reflexão filosófica sobre o cinema (apoiada em categorias e conceitos ), bastaria a referência a uma dimensão ôntica do objecto para que todas essas dúvidas se dissipassem.  No texto fundamental, datado de 1945[1], “Ontologie de l’image photographique”, Bazin expõe o seu postulado : “O cinema aparece como a ealização no tempo da objectividade fotográfica”[2]. Evidentemente, a abordagem filosófica do cinema por André Bazin conhece um limite, que é também uma possibilidade: a sua relação com a realidade e é precisamente nessa relação com a realidade, ou melhor, é na teorização dessa relação entre o cinema e a realidade que se funda a reflexão filosófica. Até aqui, nada de muito relevante se pode extrair destas formulações; é um dado adquirido que o cinema regista mecanicamente a realidade e a reproduz também de um modo mecânico, numa relação documental. Aquilo que, a nosso ver, representa o salto quântico do pensamento de André Bazin é a crença na capacidade cinematográfica de, ao revelar o real, participar efectivamente no próprio ser do real. Dir-se-á que esta caracterização sumária do pensamento de Bazin carrega consigo um vocabulário tecnicamente filosófico, tomado de empréstimo à Ontologia, a mais grave e metafisicamente comprometida disciplina filosófica. Para dissipar essa impressão, dizemos que o vocabulário é o do próprio Bazin que, descendo ao nível da matéria, refere numa das mais luminosas páginas destes ensaios a principal qualidade do acto revelatório existencial do cinema: o facto de “tocar a carne e o sangue da realidade” [3].  É por isso que à montagem , que retalha e escamoteia o real, Bazin prefere o plano-sequência que deixa aflorar a vibração das coisas, o que nos faz pensar no imenso talento do acaso e na sua quota parte de responsabilidade na criação cinematográfica; se substituirmos “coisas” por “fenómenos” teremos uma outra perspectiva filosófica que o teórico não desdenharia: a abordagem fenomenológica, o real tal como ( nos) aparece e se manifesta (perante a câmara). O que introduz ainda uma outra perspectiva correspondente a um âmbito de reflexão filosófica por excelência: a ética, pela qual mede as implicações morais do registo mecânico / técnico do qual refere a principal característica: a fidelidade. O neo-realismo, levado ao apogeu por Roberto Rossellini, fornece a Bazin um magnífico exemplo prático da sua teoria. Diferentemente das escolas artísticas que o precederam,  o realismo do neo-realismo, na obra de Rossellini mais do que na obra de qualquer outro cineasta, reside menos nos temas que na estética, a acreditarmos no seu credo:  “As coisas estão aí, porquê manipulá-las ?”, pergunta o cineasta italiano. Para Bazin, o neo-realismo é uma tomada de consciência do real, que produz um novo tipo de imagem, a imagem-facto : “Sem dúvida a sua consciência, como toda a consciência, não deixa passar todo o real, mas a sua escolha não é lógica, nem psicológica: é ontológica no sentido que a imagem da realidade que nos é restituída permanece global”[4]. Essa tomada de consciência (um termo com uma longa carreira filosófica) produz um grão de realidade, “um acrescento de realidade no ecrã”.[5]
O fervor com o qual foi recebido o pensamento baziniano é emblemático da filosofia do cinema , em particular da tradição crítica da revista “Cahiers du Cinéma”: os seus fiéis depositaram uma fé imensa no seu pensamento, portador de valores morais e criador de uma extraordinária foça simbólica. Eric Rohmer, talvez o seu herdeiro mais directo (não filmar senão aquilo que é), mediu, apaixonadamente, o impacto dessa teoria reflexiva. Bazin foi o primeiro a oferecer ao cinema a sua consciência : “À maneira de um explorador, Bazin entrega-se a uma verdadeira prospecção no interior do ser do cinema”. [6] Santificando a objectividade cinematográfica, Bazin não realizou nada menos do que uma “revolução coperniciana, análoga à que Kant realizou em filosofia. Copérnico deslocou a perspectiva da Terra em direcção ao Sol, Kant do objecto ao sujeito, e Bazin , inversamente, do sujeito ao objecto”.[7] Dessa adoração do ser puro do cinema à religião de um cinema de autor auto-produzido, em ruptura com forças profissionais, económicas, políticas e ideológicas, não foi mais do que um passo.


Arnaldo Mesquita


[1] Utilizamos neste texto a compilação de ensaios Qu’est-ce que le cinéma ?, editada em 1990 pelas Éditions du Cerf, que constitui uma selecção de textos constantes da edição em quatro volumes, publicada em 1958 pela mesma editora e que se encontra disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca. De igual modo, encontram-se disponíveis as edições nas línguas portuguesa e inglesa desta versão reduzida.
[2] “Le cinéma apparaît comme l’achèvement dans le temps de l’objectivité photographique”, ibidem
[3] “Le réalisme cinématographique et l’école italienne de la Libération” ibidem
[4]  “Sans doute sa conscience, comme toute conscience, ne laisse-t-elle pas passer toute le réel, mais son choix n’est ni logique ni psychologique: il est ontologique en ce sens que l’image de la réalité qu’on nous restitue demeure globale” 
[5] “un plus de réalité sur l’écran”, ibidem
[6] ROHMER, Éric, “La «Somme» d’André Bazin” in Le Goût de La Beauté, Paris, Cahiers du Cinéma, 1984. Este volume encontra-se disponível para consulta na Biblioteca da Cinemateca.
[7] “[…) une révolution à la Copernic, analogue à celle que Kant accomplit en philosophie. Copernic a déplacé la perspective de la Terre vers le Solel, Kant de l’object vers le sujet, et Bazin, à l’inverse, du sujet vers l’objet”. ibidem

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sábado, 12 de maio de 2018

COMO UM COMBOIO A RASGAR A NOITE









Na solidão escura do sono, no frio sem respostas para tantas perguntas que se continuam a fazer, nas lágrimas solitárias de uma almofada absorvente, na insónia teimosa de um tempo que passa e continua a passar, num caos de sombras decorado de medos, em tudo o que nos perturba sem nos deixar acontecer…alguma coisa…desejamos que alguma coisa aconteça, que interrompa um ciclo sem luz, alguma coisa que apareça das trevas da noite e que a rasgue de uma vez. Um comboio ruidoso e libertador a caminho do seu destino. Um trilho metálico que gema a cada volta das rodas da locomotiva. Qualquer coisa que se chama com um grito desesperado de interrogação, de raiva e de insistência em cavar uma vala, abrir um espaço de luz que nos alivie por instantes, que nos aqueça, que nos faça uma festa de cabeça e nos dê por pouco tempo que seja a certeza de um conforto, a tranquilidade de um sono despreocupado, a memória de outro lado no universo. Como um comboio a rasgar a noite, uma massa metálica em movimento, uma linha aberta que por onde passa não deixa nada igual ao que estava. Um comboio a rasgar a noite e a dar respostas a seres solitários que desesperam no silêncio. Os carris desenhados pelo correr ritmado do peso das rodas…ou será uma bateria a marcar o ritmo, a dar a entrada para os primeiros acordes? Um farol a acordar  cada buraco escondido, todo e qualquer espaço adormecido obrigado a acordar, um apito estridente suspenso no ar embriagado de vertigem que explode, uma direcção, um destino, uma velocidade alucinada. Ou então uma guitarra rendilhada a saltitar ao longo de uma escala, um solo, uma melodia. Um comboio a rasgar a noite como uma seta que assobia e atravessa o vento a uma velocidade vertiginosa. O baixo a acompanhar o bater do bombo da bateria a delimitar os cantos do ritmo com arranques roufenhos. E depois uma voz, feminina, doce e ao mesmo tempo grave, uma voz de menina a trautear sem letra, apenas uma área inventada que afaga embalando. Com todos os componentes no seu lugar os seres embarcam preparando-se para desfrutar a viagem. Agora sim. A noite pode continuar a ser noite, o frio, o escuro, a solidão e o medo. A imensa tela negra pode continuar absoluta, imponente, pesada sobre a cidade. O comboio arrancou e já nada o vai conseguir fazer parar. E lá dentro há passageiros, espectadores, companheiros de viagem que se empolgam com o som, que se maravilham com a velocidade, que vibram com a harmonia. A sua viagem é agora tudo o que lhes fazia falta para melhor atravessar o vale das sombras. A música é o seu guia por instantes, as canções as carruagens que se vão seguindo atreladas umas às outras. Eventualmente o comboio acabará por chegar ao seu destino, por parar. Mas nessa altura já terá cumprido a sua função. Não sei explicar quem sou mas reconheço-me se me encontrar…
Como um comboio desembestado a rasgar a noite com um potente farol a abrir caminho nas trevas, uma canção ritmada, uma harmonia embalada, um espaço aberto de esperança ou uma pausa para respirar. Um tempo limitado e vertiginoso em que por uma fracção de segundo os seres se apresentam a si mesmos, abraçando-se, reconhecendo-se. Um apito estridente a envergonhar o silêncio. Um tubo metálico que passa numa enorme pausa onde nos conseguimos encontrar. Uma viagem ao interior de quem somos, de quem nunca deixámos de ser. Uma vertigem que passou por aqui e que nos fez aguardar a manhã com muito mais ânimo, vontade e capacidade para continuar.

Artur


sábado, 14 de abril de 2018

GAIVOTAS AO FIM DA TARDE




    Ao fim da tarde, mais ou menos à mesma hora, quando resolvo ir lá fora fumar um cigarro, é como se houvesse encontro marcado. Elas passam em bando sempre de Sul para Norte em direcção ao mar. São para aí umas vinte gaivotas em formação desordenada. Fazem-se anunciar porque emitem dois tipos de pios, um logo a seguir ao outro. Dois tipos de pio distantes entre si. Julgo que no pelotão compacto há uma, talvez o guia, o "fila guia" para usar uma expressão de cavalaria, que pia primeiro. Responde-lhe outra gaivota (ou outras) mais distante da formação. Como se a primeira quisesse dizer: "Estamos aqui…vamos a passar…junta-te a nós." A outra responde e começa a aproximar-se. Quando já estão todas juntas calam-se e apontam ao mar.
Todas as tardes  mais ou menos à mesma hora elas passam por aqui quando estou lá fora a fumar um cigarro. Como bando organizado e instintivamente conhecedor do seu rumo agrupam-se desenhando várias formas quase geométricas em sucessivas modalidades de formação. Uma esquadrilha da passarada, a voar alto sempre na mesma direcção. Como almas entre encarnações, preocupadas em não deixar ninguém para trás, organizadas de acordo com a variação dos elementos. Há sobre a casa e sobre mim um espectáculo posto em cena pela Natureza que nenhuma mão humana organizou. Como se fosse parte de uma espécie dispensável que se não existisse também não fazia diferença nenhuma para a organização da vida. Ou então elemento de uma harmonia muito maior que a minha espécie, ou a delas, ou mesmo de todas as espécies num gigantesco universo. Nesta actuação sou um simples espectador, função passiva de quem não só se deslumbra como aprende qualquer coisa. Ou então elemento constitutivo de um quadro em que duas realidades se encontram à mesma hora como vizinhos e se cumprimentam fraternalmente. Tudo isso ou coisa nenhuma, que importa?
As gaivotas agrupam-se nos céus escuros do fim da tarde enquanto as observo cá de baixo e tudo pára em espasmos de contemplação e harmonia.
Deito o cigarro fora e aceno. Bom voo. Até amanhã.

Artur